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27 de dezembro de 2012

Worth it?

Postado por Bruh C às 15:09 1 comentários

27 de dezembro de 2007

Ela escancarou a porta do seu quarto, mala e coragem em mãos. Talvez estivesse cometendo o maior erro da sua vida, mas naquele momento, com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela não se importava.

Iria sair pela porta da frente de cabeça erguida, mas no fundo se perguntando o que havia feito de errado.

Não sabia para onde iria, não queria ser achada, mas também não queria se sentir perdida. Queria apenas achar um jeito de concertar tudo.

"Você poderia ter um pouco mais de força de vontade!"

Sinceramente não conseguia compreender aquelas palavras. Como ele poderia falar aquilo se o que ela mais tinha é vontade? Vontade de fazer dar certo, de crescer, de ser quem ela sempre sonhou ser.

"Não parece tão importante para você."

A cada palavra que se lembrava algo dentro dela se quebrava. Sonhos, aspirações, esperanças.

Como ele podia acreditar tão pouco em mim?

Não olhou para trás, sabia que se olhasse perderia a coragem e tudo que receberia em troca seria a decepção nos olhos dele.

Tentou não pensar em nada enquanto descia as escadas. Evitou olhar para os porta-retratos e todas aquelas lembranças. Por um segundo hesitou, um segundo apenas. Ouviu o choro baixo de sua mãe.

Sua mão congelou na maçaneta da porta tentando resistir a vontade de largar tudo e abraçar aquela que tantas vezes esteve ao seu lado.

Ela, porém lentamente se virou e o encarou com a mesma falta de expressão com que ele a olhava.

"Você acha que nada é importante pra mim e que eu não tenho força de vontade. E o pior: acha que eu me faço de vítima. Mas eu aprendi com você que não importa a dificuldade, a gente tem que tentar. E se eu não desisti até agora do que eu escolhi para o meu futuro, eu te garanto que eu não vou desistir mais. Eu só queria que você entendesse isso."

Ela olhou para sua mãe rapidamente e sussurrou: Eu sinto muito.

E com isso e abriu a porta, se arrepiando com a brisa gelada que rondeava sua cidade aquela noite. Mas antes de sair andando ouviu uma pergunta vindo dele.

"Vai valer a pena? Ir embora?"

Ela o olhou segurando o choro e com a voz embargada perguntou?

"E pra você? Vai?"

Não o deixou responder, pegou sua mochila novamente e saiu sem respirar e com as lágrimas novamente teimando em descer pelo seu rosto.

Talvez um dia ela o faria ficar orgulhoso, até lá ela teria que tentar acertar, em alguma coisa.

Pescou em sua bolsa a passagem toda amassada que tinha acabado de imprimir. Havia gasto todas as suas economias naquele pedaço de papel e não tinha um plano, só sentia que precisava daquilo.

Olhou para o papel mais uma vez e leu:

Londres - 27 de dezembro
Embarque 21:00



10 de dezembro de 2012

All you need is love

Postado por Bruh C às 13:46 2 comentários


Eu saí de casa quando ainda era muito imatura. Fui fazer faculdade do outro lado do mundo, dos Estados Unidos para Inglaterra. Tinha só 18 anos quando fiz essa grande mudança em minha vida.

Minha família não gostou muito da ideia, é claro, mas era algo que eu precisa fazer por mim. Vivi minha vida inteira embaixo da asa dos meus pais, me defendiam de tudo, e me mimavam demais. Algumas pessoas iriam amar isso, mas não eu. Eu sentia como se tivesse usando-os, abusando da boa vontade. E eu queria viver por minha conta, errar pra depois acertar, aprender coisas diferentes e conhecer lugares novos.

Não sei se minha mãe me perdoou ainda por isso, ela sempre falava que eu estava a abandonando. Muito disso era drama, mas sabia que uma parte dela realmente se sentia assim. Mas eu prometi que voltaria como fiz muitas vezes durante minhas férias e feriados prolongados.

Hoje eu já estava formada e morava há quatro anos em Londres, uma cidade encantadoramente inspiradora que eu conhecia como a palma da minha mão, mas que ainda me reservava muitas surpresas. Como ele.

***

28 de abril de 2011

Eu sempre gostei de quem assovia canções por ai, pareciam relaxados e agiam como se tivessem recebido uma boa notícia. Meu pai estava sempre assoviando, tentou me ensinar uma vez, mas foi um fracasso, acho que o fato de eu nunca ter conseguido fazer uma coisa dessas também me deixava mais admirada.

Estava sentada no Hyde Park, lendo um dos meus inúmeros romances, quando um velhinho passou assoviando por mim. Ele estava de mãos dadas com sua esposa, passeando por ai, apenas apreciando a vista. Não pude evitar sorrir e logo em seguida peguei meu caderno e comecei a escrever.

“All you need is love ele assoviava para a bela moça ao seu lado, como quisesse dedicar a ela aquela bela melodia...”

Podia passar horas escrevendo sem me cansar, horas imaginando histórias, muitas vezes absurdas, algumas com super heroínas, outras comigo no papel principal.

Olhei no meu relógio, 15:00, estava atrasada. Levantei do banco correndo, virando com tudo e sem olhar.

“Ah, que merda”. Tarde demais, o café já estava todo entornado em sua camiseta.

“Me desculpa, ai meu Deus, me desculpa”. Será que estava quente? Ai Deus, tomara que não.

Não olhei para seu rosto por pura vergonha. Alexis, a atrapalhada ataca de novo. Eu realmente deveria começar a olhar por onde eu ando, ou pelo menos andar mais devagar. Eu evitaria muitos acidentes como este.

“Ah, sempre um café entre a gente”. Não entendi a frase, enquanto tentava inutilmente limpar sua camiseta, mas não resisti e olhei para cima. E lá estava ele. O rapaz do café. Seus olhos verdes me olhavam divertidos e com certa expectativa. Ele passou a mão pelos cabelos loiros parecendo nervoso.

“Olha, mil desculpas, isso deveria estar quente”.

“Para sua sorte, café quente a esta hora do dia me dá insônia. Isso é chá gelado.”

“Bom, vai deixar uma mancha. Eu te pago outra camiseta.”

“Isso não será necessário. Estará kit comigo se me disser o seu nome.”

“Prefiro me manter no anonimato.”

Não, não tente, por favor. Apenas siga com sua vida e não me queira nela.

“Misteriosa. Gosto disso”.  Ele me lançou um sorriso torto que me fez sorrir também.

“É, grande fã de Sherlock Holmes.” Dei a volta nele e comecei a me afastar.

Não olhe para trás, não olhe!

De repente um assovio corta o ar no parque, alto e imponente, não resisto e olho tentando achar a fonte do ruído. Adivinha?

“Agora que tenho sua atenção, você ainda me deve pela camiseta, ou pelo menos me deve um café.”

“Você disse que era chá gelado.”

“Ótimo, te encontro aqui as oito”.E com isso ele me dá as costas e sai andando.

E lá estava, All you need is love, sendo assoviada por aquele irritante rapaz.




11 de novembro de 2012

Um café forte por seus pensamentos

Postado por Bruh C às 17:42 3 comentários

Engraçado como nossa vida toma caminhos inesperados às vezes. Um dia tudo está certo, nossos sonhos estão quase se realizando, você sorri todos os dias, mas então acontece uma pequena coisa e você já não reconhece mais nada.
***

15 de abril de 2011

Eu estava tomando o meu chá de sempre, com açúcar na medida certa, quando ela entrou como uma bala pela porta da cafeteria. Dava para ver que ela não era dali. Usava um shorts rasgado e uma camiseta do Beatles. Bom, pelo menos bom gosto musical ela tinha.  Ela parecia um pouco perdida, agitada demais para um local tão calmo, até que se sentou perto do balcão, pedindo um café forte. Americana.

Não parecia ter mais de vinte um, mas seus olhos eram de uma criança animada. Olhavam para todos os lados como se quisessem decorar cada detalhe daquele lugar. De repente tirou um notebook de dentro da mochila cheia de bottoms e começou a atacar o teclado com dedos ágeis. Uma parte de mim realmente queria ir até lá e perguntar o que escrevia com tanta paixão, mas seria estranho, não seria?

Seu café chegou mais rápido do que ela poderia imaginar, julgando pelo susto que ela levou, mas pediu para levá-lo de volta, pois estava muito fraco. Americana, com certeza, e provavelmente de Nova York.  Londres era uma cidade extremamente pacata, ao contrário da agitava NY. Se ela realmente fosse de lá, deveria estar querendo ir embora desesperadamente.

Minha leitura foi deixada de lado definitivamente quando a menina pegou fones de ouvido e os colocou. Eu estava a mais ou menos uns dois metros dela e conseguia ouvir com clareza a cantora P!nk  gritando a música “Blow me one last kiss” em suas orelhas. Ela estava tentando ficar surda ou o quê? 

Mas ao que parece a música só a fez ficar mais animada. Seus dedos voltaram ao trabalho, parando só algumas poucas vezes para pegar o copo de café, enquanto seus pés acompanhavam o ritmo da música, assim como a sua cabeça.

Todos olhavam para ela, porém ela não notava. Estava concentrada demais e sua animação era palpável. Mas o que diabos ela tanto escrevia ali?

Nunca fui uma pessoa muito curiosa, mas ela estava me tirando do sério. No meio de tantas pessoas calmas e monótonas, lá estava ela, quase dançando em sua cadeira. Eu queria rir com a cena tão incomum para uma segunda-feira e me peguei imaginando qual seria o seu nome.

Ela terminou seu café e se espreguiçou me permitindo das uma olhada na tatuagem que tinha no antebraço. Ficava perto do cotovelo e não era nada, além de uma palavra. Wanderlust. Então se tratava de uma aventureira, ou não. Poderia ser...

Chamei a garçonete num impulso de curiosidade e pedi para que ela entregasse um pequeno bilhete para a moça, mas que não contasse que eu o havia enviado.

Um café forte por seus pensamentos

Ela pareceu surpresa com o recado e levantou os olhos tentando achar o autor do bilhete. Tratei logo de disfarçar, voltando meus olhos pra o livro, mas sempre que podia dava uma espiada para ver o que ela estava fazendo. Ela já havia voltado para seu notebook e não deu sinal de ter respondido meu bilhete.

“Aqui está, senhor!” Levei um susto quando a garçonete depositou mais uma xícara de chá em minha mesa junto com um pequeno pedaço de papel.

Senhor Misterioso,

Está me espionando ou o quê? Fique sabendo que minha mãe me ensinou a não conversar com estranhos, por esse motivo eu vou ignorar o fato de que você está a mais ou menos uns dez minutos me encarando por cima do seu exemplar de Othelo. Aliás, quem ainda lê Othelo?

Atenciosamente,

A

Assim que terminei de ler estava boquiaberto. Não consegui segurar minha curiosidade e a encarei. Ela sorriu para mim com um olhar de criança travessa, pegou seu notebook e sua bolsa e saiu pela porta, não sem antes piscar para mim.

Americana, definitivamente.